Capítulo 2: Conflito
Quando se tem alguém para amar verdadeiramente, os dias costumam correr mais ligeiros, no meu caso não foi muito diferente. Diante de tantos momentos bons, o tempo brincava comigo; mesmo que aproveitasse o máximo de cada segundo ao lado daquele homem, era como se minha felicidade corresse insegura a cada movimento de relógio. Mesmo sem nunca acreditar que a vida poderia se mostrar tão perfeita, fui vivendo cada momento com intensidade cada vez maior. Como qualquer ser humano que se preze , tive medo que toda aquela perfeição exorbitante desaparecesse ; tive medo de acordar e descobrir que aquilo apenas fora um sonho bom. Culpa da insegura natureza feminina.Não eram medos tão bobos assim; e descobri isso da maneira mais estranha possível.
Era uma tarde de sábado como qulquer outra; Mathéu trouxera seus amigos para almoçar e conversar sobre seus assuntos. Comum; a não ser pela presença de um membro adicional no seu grupo de companheiros. Seu nome, Marcello Martinez Rosseau , que seria o melhor amigo do meu noivo desde a infância. Naturalmente, essa amizade surgiu casualmente na união comercial entre as duas família. Marcello era um rapaz alto, de porte atlético, cabelos castanhos e olhos tão azúis quanto o próprio céu; considerado um galanteador, era o tipo de homem que não precisaria esforçar-se muito para conquistar uma mulher. Pra ser sincera, não gostei nenhum pouco daquele sujeito. Geralmente minhas opiniões sobre pessoas, mesmo que superficiais, são corretas.
Daquela vez não era diferente. Sentaram todos à mesa. Exerci minha função de mulher e ajudei à servir a comida antes de me unir ao restante dos convidados. Como de costume, era uma refeição farta; um belo peru assado, com um prato enfeitado de ostras e sopa de rãs, como o centro, saladas e crepes party, seguindo deliciosos Tournedos Rossini de sobremesa. Por fim, todos estávamos educadamente fartos. Seguimos então para o salão principal, onde também ficava a sala de visitas. Acomodados e bem servidos, os convidados já estávam muito à vontade para iniciarem seu ciclo de conversas. Como eu não pertencia à maior parte dos assuntos, fiquei ao lado de Mathéu mantendo sempre a mesma postura de Dama fina e gentíl.
Não pude não reparar nos olhares indiscretos de Marcello na minha direção; era como se me cortejasse. Fiquei sem ação, mas um tanto inconformada ; como poderia , o melhor amigo do homem que eu amo , cortejar-me? Tão absurdo que por um minuto achei ser só mais um truque da minha imaginação fértil. Não era; ele era realmente um canalha. Mesmo assim deixei que passasse e continuei com meu personagem até que fossem embora.
Quando a paz rotineira fora enfim reestabelecida em nossa casa, já passava das nove horas da noite, por isso, já era hora de recolher. Tragei minhas vestes de dormir, pentiei os cabelos e deitei. Minutos depois, Mathéu chega para cumprir seu ritual de todas as noites. Observar-me dormir deveria ser muito prazeroso para ele. Não comentei nada sobre minhas percepções daquele dia com ele , mas meus sonhos insistiram em continuar lembrando. Revivi toda a situação no silêncio da madrugada.
Dois dias se passam; pouco para os homens ocupados e muito para as crianças que estão aprendendo a contar. Dois dias fazendo as mesmas coisas. Segunda-feira, à tarde. Mathéu havia saído para resolver seus problemas no trabalho, enquanto na porta alguém chama. Marcello. Ele perguntava pelo amigo e entrava em casa como se entr o asse no próprio lar. Informei-lhe sobre a brever saída de Mathéu e pedi para que lhe servissem um chá enquanto eu lhe fazia sala.
Marcello falava sem parar e eu o respondia em gestos mudos com a cabeça; até que uma pergunta chamou atenção de minhas palavras:
-A senhorita é tão bela e graciosa, não entendo como pôde juntar-se com o paspalho do Math. Diga-me, porque ele? Porque não vem ser a minha noiva?
Sujeito atrevido, asqueroso, nojento, covarde , canalha, traiçoeiro...minha cabeça não parava de atribuir adjetivos ofensivos à ele, mas minha boca era temporariamente muda. Respondi com falhas na voz:
-Desculpe meu senhor, mas sou a noiva de seu melhor amigo, é uma grande falta de caráter e uma enorme falsidade isso que dizes. Além de tudo, eu amo Mathéu, e é ao lado dele que pretendo ficar pelo resto da minha vida.
Levantei-me com rapidez , expulsando-o de minhas vistas e apontando para a porta que levava à saída. Ele levantou cabisbaixo, seguiu dois passos em direção á porta e parou, olhou fixamente para a expressão de desprezo em minha face. Como no salto de um leopardo, ele veio em minha direção e roubou-me um beijo forçado. Minha mão foi em direção à seu rosto com força ; também o impurrei, cuspindo em sua face asquerosa. Seus olhos agora pareciam de um ódio doentio. Apertou meu pulso com força, e disse:
- Se tu não serás minha mademoiselle, não serás de mais ninguém.
Largou-me e foi embora. As lágrimas escorriam lentas,e eu prezava desesperadamente pela volta do meu amado. Não passou tanto tempo até que Mathéu estivesse de volta. Ao entrar , percebeu minha presença, e quando iria contar todas as suas novidades sobre o trabalho, viu o choro e sentiu o desespero em mim. Correu para abraçar-me. Mesmo que fosse forçado, aquele beijo fez-me sentir uma prostituta; não sabia como contá-lo o que havia acontecido.



