25 de fev. de 2011

                        Capítulo 2: Conflito


         Quando se tem alguém para amar verdadeiramente, os dias costumam correr mais ligeiros, no meu caso não foi muito diferente.   Diante de tantos momentos bons, o tempo brincava comigo; mesmo que aproveitasse o máximo de cada segundo ao lado daquele homem, era como se minha felicidade corresse insegura a cada movimento de relógio. Mesmo sem nunca acreditar que a vida poderia se mostrar tão perfeita, fui vivendo cada momento com intensidade cada vez maior. Como qualquer ser humano que se preze , tive medo que toda aquela perfeição exorbitante desaparecesse ; tive medo de acordar e descobrir que aquilo apenas fora um sonho bom. Culpa da insegura natureza feminina.Não eram medos tão bobos assim; e descobri isso da maneira mais estranha possível.
         Era uma tarde de sábado como qulquer outra; Mathéu trouxera seus amigos para almoçar e conversar sobre seus assuntos. Comum; a não ser pela presença de um membro adicional no seu grupo de companheiros. Seu nome, Marcello Martinez Rosseau , que seria o melhor amigo do meu noivo desde a infância. Naturalmente, essa amizade surgiu casualmente na união comercial entre as duas família. Marcello era um rapaz alto, de porte atlético, cabelos castanhos e olhos tão azúis quanto o próprio céu; considerado um galanteador, era o tipo de homem que não precisaria esforçar-se muito para conquistar uma mulher. Pra ser sincera, não gostei nenhum pouco daquele sujeito. Geralmente minhas opiniões sobre pessoas, mesmo que superficiais, são corretas.
         Daquela vez não era diferente. Sentaram todos à mesa.  Exerci minha função de mulher e ajudei à servir a comida antes de me unir ao restante dos convidados. Como de costume, era uma refeição farta; um belo peru assado, com um prato enfeitado de ostras e sopa de rãs, como o centro, saladas e crepes party, seguindo deliciosos Tournedos Rossini de sobremesa. Por fim, todos estávamos educadamente fartos. Seguimos então para o salão principal, onde também ficava a sala de visitas. Acomodados e bem servidos, os convidados já estávam muito à vontade para iniciarem seu ciclo de conversas. Como eu não pertencia à maior parte dos assuntos, fiquei ao lado de Mathéu mantendo sempre a mesma postura de Dama fina e gentíl.
         Não pude não reparar nos olhares indiscretos de Marcello na minha direção; era como se me cortejasse. Fiquei sem ação, mas um tanto inconformada ; como poderia , o melhor amigo do homem que eu amo , cortejar-me? Tão absurdo que por um minuto achei ser só mais um truque da minha imaginação fértil. Não era; ele era realmente um canalha. Mesmo assim deixei que passasse e continuei com meu personagem até que fossem embora.
          Quando a paz rotineira fora enfim reestabelecida em nossa casa, já passava das nove horas da noite, por isso, já era hora de recolher.  Tragei minhas vestes de dormir, pentiei os cabelos e deitei. Minutos depois, Mathéu chega para cumprir seu ritual de todas as noites. Observar-me dormir deveria ser muito prazeroso para ele.  Não comentei nada sobre minhas percepções daquele dia com ele , mas meus sonhos insistiram em continuar lembrando. Revivi toda a situação no silêncio da madrugada.
          Dois dias se passam; pouco para os homens ocupados e muito para as crianças que estão aprendendo a contar. Dois dias fazendo as mesmas coisas. Segunda-feira, à tarde. Mathéu havia saído para resolver seus problemas no trabalho, enquanto na porta alguém chama. Marcello. Ele perguntava pelo amigo e entrava em casa como se entr o asse no próprio lar. Informei-lhe sobre a brever saída  de Mathéu e pedi para que lhe servissem um chá enquanto eu lhe fazia sala.
          Marcello falava sem parar e eu o respondia em gestos mudos com a cabeça; até que uma pergunta chamou atenção de minhas palavras:
          -A senhorita é tão bela e graciosa, não entendo como pôde juntar-se com o paspalho do Math. Diga-me, porque ele? Porque não vem ser a minha noiva?
          Sujeito atrevido, asqueroso, nojento, covarde , canalha, traiçoeiro...minha cabeça não parava de atribuir adjetivos ofensivos à ele, mas minha boca era temporariamente muda. Respondi com falhas na voz:
          -Desculpe meu senhor, mas sou a noiva de seu melhor amigo, é uma grande falta de caráter e uma enorme falsidade isso que dizes. Além de tudo, eu amo Mathéu, e é ao lado dele que pretendo ficar pelo resto da minha vida.
          Levantei-me com rapidez , expulsando-o de minhas vistas e apontando para a porta que levava à saída. Ele levantou cabisbaixo, seguiu dois passos em direção á porta e parou, olhou fixamente para a expressão de desprezo em minha face. Como no salto de um leopardo, ele veio em minha direção e roubou-me um beijo forçado. Minha mão foi em direção à seu rosto com força ; também o impurrei, cuspindo em sua face asquerosa. Seus olhos agora pareciam de um ódio doentio. Apertou meu pulso com força, e disse:
       - Se tu não serás minha mademoiselle, não serás de mais ninguém.
          Largou-me e foi embora.  As lágrimas escorriam lentas,e eu prezava desesperadamente pela volta do meu amado. Não passou tanto tempo até que Mathéu estivesse de volta. Ao entrar , percebeu minha presença, e quando iria contar todas as suas novidades sobre o trabalho,  viu o choro e sentiu o desespero em mim. Correu para abraçar-me. Mesmo que fosse forçado, aquele beijo fez-me sentir uma prostituta; não sabia como contá-lo o que havia acontecido.

11 de fev. de 2011

By: Jéssica Rondely
            Capítulo 1 : Vidas separadas.
                                               * Por: Véronique Blanc Legrand 



                       É doloroso ter de recontar a história da minha tragetória ; mas as coisas devem ser finalmente esclarecidas.
                       Chamo-me Véronique Blanc Legrand , nascida em mil oitocentos e oitenta e dois na linda cidade  de Château de Saint-Germain-en-Laye (França)  , descendente da nobre família de Viscondes Legrand. Fascinada por pianos e entregue à palavras , busquei a felicidade por onde o coração me guiasse. Desde muito nova fui prometida matrimonialmente à um jovem não tão mais velho que eu, o Conde Mathéo D'Alembert Bonnet.
                             A história começa na primavera. Alcançando idade e experiência suficiente para assumir responsabilidades domésticas , mudei-me para a casa de meu futuro marido. Sentia-me completamente deslocada naquele casarão , convivendo com uma família  pela qual não me adaptava ; meu noivo era  um estranho diante de meus olhos. Por alguns dias as frases não me saiam à boca,  expressava minhas vontades sempre com palavras monossilábicas e sem graça.
                           Não podia dormir no mesmo quarto que Mathéo , e como ele estava sempre tratando de interesses comerciais e financeiros , prozeavamos muito raramente. Os dias passavam lerdos até que se pudesse completar um ano. Até então já havia me acostumado com a presença dos novos familiares, mas não conhecia meu noivo afundo e nem o amava.
                          Novembro; em um dia comum tragei-me de vestes adequadas para contemplar o magnífico sol poente do jardim enquanto saboreava com calma o chá da tarde, sempre costumei seguir essa rotina sozinha. A distração tomava conta de gestos corriqueiros quando meus olhos devoravam o horizonte. Um ponto diferente na paisagem me levou a desprender a atenção do céu e focar na figura de um homem, atento a cada movimento meu e com um sorriso um tanto sarcástico nos lábios. Meu prometido.
                        Ele se aproximou da mesinha onde tomava meu chá e sentou-se rente a mim, preenchendo outra chícara. Disse:
                        - O pôr do sol aqui é mesmo deslumbrante, não é?
                        - Sim, é lindo. - respostas curtas e simples ,como já estava habituada a usar.
                       Mathéu sorriu por dois segundos e após uma pausa silenciosa voltou a puxar conversa:
                       - Só não é mais belo que o seu olhar. Será que podes não usar mais de termos curtos ao dirigir-se a mim? Afinal , daqui a uns tempos casamos. Não pretendo esposar uma mulher que não conheço bem.
                       A voz ameaçou falhar, o corpo parecia mais aquecido; e mesmo assim busquei coragem para responder.
                       - Será como quiser senhor Conde. Por onde devemos começar então?
                      - Comece não me chamando mais de senhor Conde, me faz parecer anos mais velho, pra você sou Mathéu. Mas diga-me, quem é Véronique Blanc Legrand ?
                 - Pergunta mais boba senh...nh... Mathéu! - mesmo que tivesse compreendido a questão que me fora apresentada, hesitei.
                 - Vejo nos teus olhos que pode responde-la sem delongas.
                 Estava certo, dei-lhe o que queria.
                 - Sou exatamente como você me vê. Sou gestos, palavras, sentimentos e ações. E tu, quem és?
                 Observei fascínio em seu sorriso por culpa da resposta obtida e da pergunta sequencial.
                - Já eu sou um eterno apaixonado. Estimo os traços incertos da vida carregando sempre o fardo de erros que cometi e a glória de ter aprendido com cada um deles. Sou como o sol, tenho meu fogo e minha força sem nunca ter deixado para traz a delicadeza e o romance. Sou tudo o que você não espera de mim.
                 A conversa prosseguiu. A noite surgiu depressa ,mas nosso momento continuou até o raiar do dia seguinte. Pode ser um pouco estranho, mas não fui tomada pelo cansaço. As coisas que jorravam dos lábios doces daquele homem pareciam saciar a fome de meus ouvidos atentos e cada vez mais interessados, pude perceber a mesma reação dele. Na semana seguinte a esta, continuávamos por repetir as horas de prosa prolongada, mas das outras vezes sem descuidar da hora. Estávamos nos conhecendo e isso era esplêndido.
                 O tempo continuou a seguir seu rumo até que eu pudesse admirar tudo em Mathéu. Sua presença era como um veneno de efeito enérgico; parecia perder o controle de meu próprio corpo. Pernas que aparentavam desabar de tão bambas, o coração que quase saía pela boca, os pensamentos que direcionavam-se a uma só pessoa. Estava distraída, impaciente, indecisa e ainda confusa. Queria sempre achar explicação pro que sentia, afinal, mentir para si mesmo é sempre a pior mentira.
                      Gosto de arriscar todas as fichas em jogos de cartas marcadas, então fui adiante.  Se não falasse aquele homem o quanto ele significava , era muito provável que  chegasse a enlouquecer completamente. Tarde demais, uma loucura estranha me acompanhava.
                      Lá estava ele , tão pensativo sentado rente ao balcão do escritório, chegava a ser quase irresistível. Ao notar minha ilustre presença, colocou de lado os papéis e desviou sua atenção exclusivamente a minha pessoa.
                      - Nossa! A senhorita não faz idéia do brilho que tens. Acaba de iluminar não só o escritório como também o meu dia. Agora já é possível declarar-me um homem de sorte. Mas a que devo a honra da visita  da mulher mais bela que já tive o prazer de contemplar?
                     Ele sabia exatamente como me deixar sem graça. Ergueu-se de sua poltrona e beijou-me a mão.
                     - Mathéu , tem uma coisa que está me enlouquecendo.- a aflição destacava-se na minha face.
                     Preocupado , interrompe meu discursar e acrescenta o nervosismo aparente em sua declaração seguinte:
                     - O que aconteceu? - fixava intensamente em mim.
                     - Não fique preocupado por favor , o problema é..é que...- minha gagueira era visível assim como o sorriso que nascia em seu rosto.- estou completamente apaixonada por você.- apertei as pálpebras com força esperando uma reação negativa.
                       Ele me abraçou com vigor, o que encorajou meu corpo a relaxar e apenas aquele abraço ,aceitando-o como uma das melhores sensações que já havia experimentado. Os corpos foram separados de forma lenta; agora ele tomava me queixo em direção ao seu , unindo os lábios em um beijo único e ardente.Não podíamos mais resistir um ao outro.
                       Mathéu era ótimo com versos. Recitava-me sempre que um lhe viesse a cabeça; iniciou sua recitação:
                      -'' Quando aprendi a te amar, o mundo passou a ser meu. Antes de tê-la em meus braços , rezei todos os dias para que Deus enviasse um anjo que pudesse guardar meu coração,  finalmente tive minhas preces atendidas. Meu caminho é uma trilha hesitante que quero traçar contigo a cada amanhecer. És o luar que faltava nas noites que passei em claro observando o céu escuro. Desejo conquistá-la todos os dias apenas para provar-lhe o quanto a amo, e tornar visível a variação de personalidades que posso ter somente para o teu agrado. Quero beijar teus lábios até que os números desistam de tentar nos acompanhar; acordar todas as manhãs e ver que a mulher certa está ao lado, acompanhando todas as trajetórias cotidianas. Por ti começo a transpor os portões da razão e mergulhar consciente na imprudência de amar-te. Mas que surpresa , quem poderia prever que eu viria a sentir por você o mesmo que sentes por mim?''
                    O silêncio se convertia em beijos veementes. Esta seria a primeira noite que dormiríamos juntos. Como dizia claramente no acordo entre as famílias, eu deveria permanecer virgem até o casamento. Assim, esta noite ele havia apenas deitado ao meu lado na cama, sem abrir mão de acariciar meus cabelos soltos enquanto ressaltava o quanto julgava-me linda , encaixando a aparência em sentenças de amor.
                    -'' Teus olhos castanhos são como rios de mel que se alinham delicadamente á cada linha do teu rosto, em perfeita harmonia com seu sorriso garrido. Apreciar-te é um vício inconsequente, não contento-me com o que vi até agora e por isso busco sempre mais. Os cachos do teu cabelo dourado me lembram ondas no mar, que desabam sobre teus ombros assumindo um contraste maior causado por tua pele branca e macia. És a rosa que exala o perfume mais suave e atraente entre todo o jardim. Tão doce e tão pura, te protegerei sempre, nem que tenha que doar-me por inteiro. Minha pequena, de que me importa todo resto se não possuir a ti e ao teu amor. Juntos, mostraremos ao mundo o poder do amor verdadeiro. Sou por ti, o incompreensível , minha Véronique. ''
                   Quando o sono conseguia me vencer, Mathéu ficava por horas me olhando dormir. Meus sonhos sempre me guiavam à meu amor e sentia-me feliz como uma criança ao vê-lo novamente pela manhã. Havia perdido todos os vestígios de racionalidade.

                

Cap 2 : em andamento...